CIÊNCIA EM REVISTA: A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS ATRAVÉS DA UTILIZAÇÃO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
Aqui, a intencionalidade é destacar a dissertação de mestrado de Igor Ferreira Nörnberg intitulada CIÊNCIA EM REVISTA: A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS ATRAVÉS DA UTILIZAÇÃO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação em Ciências e Matemática. Para tal o Orientador foi Dr. ROQUE MORAES.
De acordo com Igor Ferreira Nörnberg "O ensino de Ciências tem como uma de suas funções a construção de uma nova linguagem que possibilite a ampliação da leitura do mundo. A apropriação deste tipo de linguagem requer uma constante impregnação, além de abordagens dinâmicas que permitam aos alunos desenvolverem seus saberes de maneira lógica e crítica. O uso das histórias em quadrinhos pode possibilitar o desenvolvimento do conhecimento científico devido ao seu caráter singular de expressão que desperta a criatividade e a imaginação. O objetivo desta dissertação foi analisar a interpretação que alunos da sexta série do Ensino Fundamental fazem a partir dos quadrinhos, além de investigar a sua utilização como instrumento didático. Para isso, foram coletadas interpretações dos alunos sobre tirinhas do Níquel Náusea. Também foi desenvolvido um trabalho de pesquisa que teve como ponto de partida tirinhas que os próprios alunos levaram para a aula. A pesquisa apresenta uma abordagem naturalística-construtiva, e as informações foram analisadas por meio da Análise Textual Discursiva (MORAES; GALIAZZI, 2007). As histórias em quadrinhos demonstraram ser uma importante ferramenta que aproxima a vida escolar com o cotidiano dos alunos, o que pode facilitar a
verificação dos conhecimentos prévios. A utilização dos quadrinhos nas aulas de Ciências não pretende ser uma metodologia única, tratando-se apenas de mais uma opção para a alfabetização científica."
Tirinhas selecionadas pelo pesquisador para desenvolvimento da pesquisa
Conclusões do autor:
"Todo o processo de pesquisa e impregnação realizado na construção desta dissertação me permite chegar ao seu final com um gosto de começo. Início de uma visão que enxerga com mais nitidez o continente de possibilidades proporcionadas pelos quadrinhos como instrumento de ensino.
Foi um processo de ampliação de horizontes e perspectivas, que saiu de um porto seguro em direção às Índias, mas a exemplo de Cabral, aportou em outras terras. As correntes que me trouxeram até onde me encontro não significaram um desvio de rota. Até porque não existia um mapa, por conseguinte, não existiam rotas. Não confundir ausência de rotas com ausência de objetivos. Estes sempre acompanham a vida de um navegador. Representam desafios a serem superados, limites a serem ultrapassados.
As rotas foram sendo construídas ao longo do percurso. Umas se deram ao sabor do vento, resultado de forças naturais de natureza desconhecida. Talvez seja a manifestação do inconsciente, lugar de onde acredito surgirem os insights. Já outras, foram capitaneadas conscientemente por mim. Conforme o mapa se construía, as Índias assumiam contornos de Brasil. Rusavin (1990, p. 31) diz que: “Resolver um problema sempre pressupõe ir além das fronteiras do já conhecido; portanto, não adianta recorrer a priori a regras e métodos previstos de antemão para chegar a um final feliz”. Sobre o seu objetivo de convencer os cientistas da não existência de um método único, Feyerabend (1989, p. 43) afirma: [...] todas as metodologias, inclusive as mais óbvias, têm limitações. A melhor maneira de concretizar tal propósito é apontar esses limites e a irracionalidade de algumas regras que alguém possa inclinar-se a considerar fundamentais.
A navegação por mares desconhecidos, ao mesmo tempo em que é excitante, é assustadora, pois traz a convivência com incertezas. Lidar com essas dúvidas é expandir os horizontes do conhecimento e assumir novas preocupações teóricas. A segurança trazida pela ancoragem no continente, simbolizada pelo término desta dissertação é provisória. Ao mesmo tempo em que estar em terra firme pode representar segurança, pode trazer também um enraizamento de ideias que colaboram para a esterilização do pensamento.
Em virtude disso, jogar-se novamente ao mar das incertezas, sem mapas e sem rotas, apenas com a experiência acumulada na bagagem, é a sina do navegador. Pretendi fazer jus à sina dos navegadores. Além disso, acredito que um dos objetivos implícitos neste trabalho é fazer com que cada professor se torne um navegador e recolha suas ancoras, como tentei fazer. É um convite para se aventurar pelos mares abertos que representam a atividade docente.
O uso das HQs no ensino de Ciências faz parte de uma dessas incursões pelo desconhecido e procurei deixar apenas algumas pistas que podem colaborar para trazer um pouco de alento nos dias em que o mar estiver de ressaca.
Saber que outras pessoas também trilharam caminhos cercados de expectativas pode trazer instantes de conforto. No meu barco também estavam histórias de outros navegadores, e naqueles momentos de dúvidas, elas serviram de bússola para conduzir a embarcação.
Através dos mares das HQs percebi um caminho interessante para ser percorrido com a finalidade de contribuir para o processo de construção do conhecimento. Os quadrinhos mostraram-se instrumentos que oferecem ao professor possibilidades de trabalhar em conjunto com o aluno numa atitude cotidiana de pesquisa. O aluno torna-se protagonista de sua aprendizagem, e o professor passa a ser um colaborador deste processo, deixando o trono de “senhor do saber”. O desenvolvimento de uma atitude de pesquisa em sala de aula aproxima o cotidiano do aluno do espaço escolar, e oportuniza a manifestação das dúvidas e curiosidades, normalmente excluídas do processo de aprendizagem. No entanto, o desenvolvimento desta atitude fica restrito a poucos professores.
As HQs ainda podem ser utilizadas como mecanismos para o desenvolvimento da criticidade a partir da elaboração de textos que analisam, por exemplo, o emprego de conceitos científicos nos quadrinhos. São inúmeras as atividades que a linguagem dos quadrinhos traz para a sala de aula. Desde as séries iniciais pode-se incluir no currículo atividades que usem os quadrinhos, seja como meio para incentivar a leitura, ou como instrumento para desenvolver a criatividade e a imaginação.
Os quadrinhos já têm como uma premissa a participação do leitor no papel de co-autor quando este completa as lacunas existentes entre um quadro e outro, e a possibilidade de autoria ainda pode ser ampliada numa atividade que envolva também a escrita dos próprios diálogos dos personagens contidos nos balões. Basta o professor apagar os diálogos já existentes e, pronto: surge mais uma tarefa. Imagino ser este um passo que pode ser dado no sentido do próprio aluno ser responsável pela construção de sua HQ, com personagens, cenários e diálogos originais. Essas são apenas mais algumas opções de atividades que podem ser somadas ao repertório mostrado ao longo desta dissertação. Este somatório de atividades não pretende servir como métodos únicos de utilização dos quadrinhos, capaz de resolver todas as mazelas do nosso encarcerado sistema de ensino. Deixo a unicidade para o contexto. Este sim é único. E partindo da singularidade de cada aluno e de cada escola, exige-se um esforço por parte do professor para criar o seu próprio método. Tarefa esta que é facilitada pelo dinamismo apresentado pelos quadrinhos.
Mas para que a metodologia criada pelo professor consiga fugir da desvalorização do pensamento dos estudantes, é inevitável que ela tenha como impulso a curiosidade. A curiosidade ultrapassa as fronteiras de qualquer método, ela está sempre flertando com o pensamento dos sujeitos num incentivo de ir além do que se sabe. Uma das coisas mais interessantes para a qual fui despertado durante este percurso foi à necessidade de se refletir sobre os objetivos da atividade docente. O dia-a-dia da profissão vai fazendo tudo ficar mecanizado, como se no começo do dia um botão com a inscrição “automático” fosse pressionado. Corre-se o risco de chegar um determinado dia e ficarmos sem palavras diante de uma pergunta como:
“Por que tu ensinas este conteúdo?”. Paradoxalmente, quando os professores são indagados sobre seus papéis, uma grande parte responde: “Formar cidadãos críticos e criativos, capazes de atuar de maneira significativa na sociedade”. Eu mesmo já dei essa resposta. Mas digo que é um paradoxo porque a criticidade e a criatividade que esperamos de nossos alunos podem não estar presentes no nosso trabalho se não olharmos diariamente para a nossa prática. Por isso, a prática docente deve ser reconstruída todos os dias, visando à aprendizagem daquele que é o centro da educação: o aluno. As histórias em quadrinhos se constituem de mais um meio dentre tantos outros que podem significar a reconstrução da docência.
Navegamos para chegar a algum lugar que imaginamos, mas se não chegarmos nesse lugar, certamente aportaremos em outro lugar tão ou mais recompensador do que o inicialmente imaginado. E o bom nisso tudo é a viagem. O mais importante não é a chegada, mas o estarmos indo."
Dissertação
Comentários
Postar um comentário