WATCHMEN: ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA & QUÍMICA
Aqui, a proposta é resgatar o trabalho desenvolvido por IVAN CARLO ANDRADE DE OLIVEIRA, em sua dissertação de mestrado A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NOS QUADRINHOS: ANÁLISE DO CASO WATCHMEN, apresentada ao curso de pós-graduação em comunicação social da Universidade Metodista do Estado de São Paulo como requisito à obtenção do grau de mestre orientada pelos Prof. Dr. Isaac Epstein
Em seu trabalho IVAN CARLO ANDRADE DE OLIVEIRA descreve "A relação história em quadrinhos/ciência passou por várias fases distintas. Em um primeiro momento, as HQs ignoram a ciência. Depois, com o surgimento da ficção científica nos quadrinhos, escritores e desenhistas se esforçaram em usar a ciência e a tecnologia em suas histórias, tentando prever suas realizações. Esse é um período marcado por muitas antecipações.. Finalmente, em nossos dias, os quadrinistas estão divulgando uma visão crítica da ciência. Isso representa o amadurecimento da linguagem da HQ: os quadrinistas estão tomando partido de uma ciência ética e de paradigmas emergentes, representados pela teoria do caos. Watchmen é, provavelmente, o melhor exemplo desse processo."
Texto extraído de: repositório fiocruz
Trecho da história em quadrinhos discutida na pesquisa
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Trecho de Watchmen (versão definitiva parte 1) - disponível em acervo drive |
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Capa e trecho de Watchmen (versão definitiva parte 1) disponível em acervo drive |
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Capa e trecho de Watchmen (versão definitiva parte 2) - disponível em acervo drive |
Conclusões do autor:
"Ao longo dos capítulos anteriores, vimos como, nesses mais de 100 anos, a ficção em quadrinhos esteve intimamente ligada ao tema ciência. A começar pelo fato de que, não fosse o rápido desenvolvimento da ciência no século passado, não existiria a tecnologia de impressão que permitiria o surgimento das histórias em quadrinhos. Assim, aquele que é considerado por muitos como o primeiro personagem de quadrinhos, surge para testar urna novidade tecnológica: o uso da cor amarela na impressão.
Depois de passar anos entretida com divertimentos descompromissados, o que valeu a essa mídia o nome de comics, nos EUA, as HQs se voltaram para a ciência, usando-a corno fonte, referência e inspiração. É quando começam as antecipações. Flash Gordon antecipa o mecanismo de segurança e conforto das futuras astronaves; Buck Rogers antecipa o uso do recuo da pistola para o deslocamento no espaço; O Quarteto Fantástico prevê o uso da realidade virtual nos experimentos científicos e até mesmo os clones aparecem nas histórias em quadrinhos muitos anos antes da ovelha Dolly.
Urna pergunta que o leitor deve ter se feito é: por que isso? Porque a ficção constantemente acerta mais que a ciência? Uma questão, sem dúvida, difícil de ser elucidada. Urna tentativa de resposta foi dada no capitulo 1, quando se disse que Robida acertava muito porque também atirava muito. E à esmo. De fato, a quantidade de previsões realizadas na ficção parece ser maior que aquelas feitas nos laboratórios científicos. Mas isso não explica totalmente o tema.
No artigo Meta-organização da Informação, Magoroh Maruyama apresenta urna proposição segundo a qual podemos distinguir três universos, de acordo com a maneira corno eles organizam a informação: o universo classificador, o universo relacional e o universo relevante. Aqui nos interessam os dois primeiros. Maruyama apresenta como exemplo um cachorro e uma cadeira. No universo classificador não há relação entre o cachorro e a cadeira, senão acidental. No universo relacional, a relação entre um e outro não só é possível, como é mais importante do que o fato de que a cadeira pertence ao reino vegetal e o cachorro ao reino animal.
O universo relacional é o universo da arte. Para o pintor, o cachorro sobre a cadeira pode significar urna bela composição, embora para o cientista não represente nada. A linguagem da arte é uma linguagem analógica. Fazer arte é, muitas vezes, relacionar coisas que aparentemente não têm relação entre si. Como o cachorro e a cadeira.
Gripes e computadores não têm uma relação aparente. Vem o roteirista de quadrinhos e se pergunta: “ E se os computadores pudessem simular, em seus circuitos, o processo de desenvolvimento do vírus da gripe e, se, assim, eles conseguissem achar a cura para a doença?” E eis que ele prevê o uso da realidade virtual nas experiências científicas. É justamente o fato de trabalhar com o universo relacional que permite ao artista, em diversas ocasiões, prever mais facilmente do que o cientista. As próprias idéias de Maruyama nos ensinam a não ser excludentes. A ficção prevê mais por trabalhar com o universo relacional, mas não só isso. Ela também acerta mais porque os cientistas estão comprometidos com um paradigma e com uma comunidade de pares, prontos a analisar e criticar suas proposições. O cientista não irá prever algo que contradiga o paradigma no qual ele acredita.
Nenhum cientista diria que o homem pode chegar à Lua a bordo de um balão porque isso seria a negação de boa parte do paradigma dominante a respeito do espaço. Só a falta de oxigênio no vácuo já seria um argumento suficientemente forte para afastar a hipótese. O medo de prejudicar sua reputação acadêmica também o impede de tentar relacionar coisas aparentemente dispares, ou de apresentar teorias excessivamente polêmicas. Esses dois aspectos explicam, provavelmente, porque a queda do muro de Berlim pegou quase todos os cientistas sociais de surpresa.
Já o roteirista de quadrinhos não tem essa preocupação. Seu trabalho é justamente relacionar coisas dispares. O sucesso de sua obra está justamente na capacidade de imaginar eventos originais, independente deles serem possíveis de acordo com o conhecimento científico atual ou não. Ao estruturar seu texto, o roteirista estabelece a sintaxe do seu universo, as regras básicas às quais seu mundo virtual obedece. No mundo da editora Marvel é possível existir um homem formado de pedras (O Coisa), ou um homem capaz de incendiar seu corpo sem se queimar (o Tocha humana). Mas no mundo da Marvel dificilmente veremos o Homem-Aranha derrotando o Thor pela simples razão de que este é infinitamente mais poderoso que aquele.
O mundo das histórias em quadrinhos segue suas regras próprias que não precisam, necessariamente, corresponder ás leis físicas e biológicas de nosso mundo. Nas histórias em quadrinhos, o HuIk é capaz de levantar o asfalto como se segurasse um tapete. Nas HQs é possível existir um metal maleável que resiste a tiros, como o da armadura do Homem de Ferro. É justamente essa liberdade de não se ater ao conhecimento científico de sua época, de fazer relações insuspeitas, que permite ao artista tantas previsões acertadas. E claro que, para cada previsão acertada, há centenas de fenômenos que só existem e só existirão nos quadrinhos, como os exemplos citados acima.
Voltando à relação quadrinhos-ciência, percebemos que essa relação foi passando por um processo de maturação. Inicialmente os quadrinhos desconhecem a ciência, ocupados que estavam em sua fase descompromissada A partir da queda da bolsa, as HQs tomam consciência da realidade, e da ciência. Surgem HQs baseadas em descobertas científicas. Alguma, como Buck Rogers, têm cientistas em sua equipe criativa. E os quadrinhos vão passar por longos anos assim, divulgando ou deixando-se influenciar pela ciência. Vamos, encontrar, inclusive, ótimos exemplos de divulgação científica, corno a História da Universo, de Gonick. Mas é a partir da década de 80 que as HQs vão chegar à sua maturidade como forma de expressão artística em obras como Cavaleiro das Trevas, Watchmen, V de Vingança, Maus, Sandman e Os Companheiros do Crepúsculo.
Essa maturidade vai se refletir na relação com a ciência. Os quadrinhos entram na discussão epistemológica e ideológica que caracterizou o pós-modernismo. Temos a critica aberta à ciência em seus aspectos nocivos, cujo melhor exemplo talvez seja o Homem-Animal, de Grant Morrison. E temos uma discussão mais profunda e complexa da ciência, da vida, do perigo atômico, das nova teorias, em Watchmen, ou como a discussão sobre o destino e o livre-arbítrio em Skreemer. É como se os autores (em especial os roteiristas ingleses, que foram os principais renovadores dessa midia nos anos 80) dissessem: “Por que não discutir nas HQs os assuntos que realmente importam no mundo contemporâneo?”. Os roteiristas e desenhistas resolvem tomar partido a respeito das questões científicas. E talvez essa seja a principal característica dessa relação na era pós-moderna: os quadrinhos começam a tomar partido, ao invés de simplesmente divulgar a ciência. Algo que, aliás, já podia ser percebido na História do Universo, de Gonick.
Os quadrinistas não empreendem urna cruzada anti-ciência. Até porque eles reconhecem que os cientistas trouxeram mudanças extremamente positivas para o nosso mundo. É a ciência que permite ao homem realizar seus sonhos, seja voar, chegar á Lua, ou ser capaz de ver e ouvir algo que está acontecendo do outro lado do mundo. Mas os quadrinistas tomam partido de uma ciência que respeite a natureza, que não esteja comprometida com objetivos militares, mas com valores humanistas, que não tenha como emblema o “avançar a qualquer custo”. Eles anseiam por uma ciência que não seja tão determinista e linear, que permita entender a complexidade das relações do mundo contemporâneo.
Talvez venha daí o fascínio pela teoria do caos. Grant Morrisou e Alan Moore, os dois roteiristas que mais trataram de questões da ciência, ambos, apesar de suas divergências, voltam suas esperanças para a teoria do caos. Morrison falou claramente na teoria do caos em Asilo Arkhan e Homem-Animal. Para que não restassem dúvidas, ele tratou meio de introduzir um fractal da familia Mandelbrot numa das HQs do herói ecológico. Com Moore e Morison surge algo que antes podia ser apenas entrevisto e adivinhado: a divulgação de paradigmas científicos nas histórias em quadrinhos. Kuhn argumenta que, quando ocorre urna revolução científica, duas visões de mundo entram em conflito. Entretanto, “a superioridade de uma teoria sobre a outra não pode ser demonstrada através de uma discussão. Insisti, em vez disso, na necessidade de cada partido tentar convencer através da persuasão”.
O que irá definir a vitória de um paradigma não é, necessariamente, o fato dele ser mais científico que o outro, mas sua capacidade de persuadir. Um paradigma emergente, se quiser suplantar o antigo, deve investir nas novas gerações de cientistas. Segundo Kuhn, se o novo paradigma perdura por algum tempo e continua a dar frutos, alguns cientistas começam a se interessar em saber o porque de seus resultados. “Essa reação ocorre mais facilmente entre os que acabam de ingressar na profissão, por que ainda não adquiriram o vocabulário e os compromissos especiais de qualquer um dos grupos”.
É aí, provavelmente, que entra o papel das histórias em quadrinhos. Dificilmente um cientista contrário à teoria do caos vai se deixar converter pela leitura de Watchmen ou Homem-Animal. Mas essas histórias têm o mérito de acostumar uma geração à visão de mundo de um novo paradigma. As HQs atingem justamente um público que está mais propenso a aceitar novas idéias. Elas atingem pessoas que provavelmente ainda nem são cientistas, mas que irão se familiarizar com termos como efeito borboleta e fractal.
Por outro lado, essas histórias em quadrinhos, ao discutirem valores morais e éticos no que diz respeito à ciência também convence os jovens da falácia do imperativo “avançar a qualquer custo”. Esses jovens terão mais facilidade em aceitar uma ciência que não agrida a natureza e que, pelo contrário, ajude a preservá-la; uma ciência que liberte, e não seja usada para o domínio, para a manipulação política e ideológica. Eles estarão mais propensos a procurarem alternativas para a utilização de animais em experiências científicas e, provavelmente não verão com maus olhos a perspectiva humanista nas ciências.
Embora não tenham resultado positivo a curto prazo a divulgação de novos paradigmas na forma de histórias em quadrinhos pode ter ótimos resultados a longo prazo, ao acostumar um nova geração de cientistas com os termos e noções desse paradigma. Aqui nos atemos mais demoradamente nos quadrinhos americanos, em específico aqueles escritos por roteiristas britânicos. É bem provável, no entanto, que o mesmo fenômeno de tornada de posição em favor de um paradigma científico emergente possa ser observado também nos quadrinhos europeus, japoneses e latino-americanos. Um exemplo brasileiro talvez seja a personagem Valéria Virtual, de Flávio Calazans, que divulga a geometria fractal e a realidade virtual em suas histórias."
Texto extraído de: repositório fiocruz